Pergunte a alguém que estudou na França há dez anos quanto custa estudar na França, e a resposta provavelmente vai ser: quase nada. Universidade pública por menos de 200 euros, uma ajuda do governo para pagar o aluguel e uma comprovação financeira que cabia no orçamento de muita família brasileira.
Essa resposta envelheceu. Hoje o estudante brasileiro paga matrícula diferenciada na universidade pública, não recebe mais o APL e precisa mostrar ao consulado 877,50 € por mês de recursos. Nenhuma dessas mudanças, sozinha, inviabiliza o projeto. Juntas, elas mudam a planilha.
Vou montar aqui o orçamento do primeiro ano na ordem em que as contas aparecem. Como os valores mudam quase todo ano, deixo em cada um o lugar onde conferir.
Quanto custa estudar na França no primeiro ano
Primeiro o número, depois os detalhes. Para uma graduação (licence) em universidade pública, o mínimo fica em 13.637 €. Para um mestrado, em 14.685 €. A tabela mostra de onde sai cada parte.
| Item | Licence | Master | Quando se paga |
|---|---|---|---|
| Matrícula diferenciada | 2.902 € | 3.950 € | na inscrição |
| CVEC | 105 € | 105 € | antes da inscrição |
| Validação do visto (VLS-TS) | 100 € | 100 € | até 3 meses após a chegada |
| Comprovação financeira (877,50 € × 12) | 10.530 € | 10.530 € | no pedido de visto |
| Total mínimo | 13.637 € | 14.685 € |
Esses totais são o piso. Ficam de fora a taxa do Études en France, a taxa consular, a passagem, o seguro e a caução do apartamento, que variam demais para caber numa tabela fixa.
Repare que matrícula e comprovação aparecem somadas. Os 877,50 € por mês são o que o consulado considera suficiente para você viver; a matrícula vem por fora. Tem gente que monta o extrato bancário só com o valor da comprovação e descobre, na hora da inscrição, que faltam três mil euros.
Taxa de matrícula na universidade francesa para estrangeiros
A universidade pública francesa cobra 178 € por ano na licence e 255 € no master de quem é francês ou europeu. De quem vem de fora da União Europeia, cobra 2.902 € e 3.950 €. São os droits d’inscription différenciés, com valores publicados pelo service-public.gouv.fr.
A regra existe desde 2019. A novidade é que agora ela pega. Durante anos, muitas universidades isentavam quase todo estrangeiro, e muita gente nunca chegou a pagar. Um decreto de maio fechou essa porta: cada universidade só pode isentar 30% dos estudantes extracomunitários neste ano letivo, 25% no próximo e 20% a partir daí.
Quem não paga o valor diferenciado
Alguns perfis ficam fora da regra e pagam o mesmo que um estudante francês. Na lista oficial do Ministério do Ensino Superior, estes são os que mais aparecem entre brasileiros:
- quem vai fazer doutorado, que paga 398 € por ano como qualquer doutorando;
- quem tem residência de longa duração na França, e também os filhos menores;
- quem tem domicílio fiscal na França há mais de dois anos, vinculado à declaração dos pais, o caso típico do filho de brasileiros que já moram aqui;
- quem estuda como aprendiz, porque a formação em aprendizagem é gratuita;
- quem tem bolsa do governo francês.
Escola de engenharia e diploma próprio da instituição seguem outra lógica: o valor é fixado pela própria escola e a matrícula diferenciada não se aplica. Nas escolas privadas, a mensalidade quase sempre é o item mais pesado da conta.
Dá para pedir isenção?
Dá, mas a porta ficou estreita. A isenção agora é individual, pedida por você, e só é concedida por situação pessoal, principalmente dificuldade financeira. Isenção por mérito ou por pertencer a um grupo deixou de existir. Cada universidade define os próprios critérios e o calendário do pedido, então procure o serviço de scolarité assim que receber o aceite.
Na prática, faça o orçamento como se fosse pagar o valor cheio. Se a isenção vier, é dinheiro que sobra.
CVEC: a contribuição obrigatória de 105 €
Antes de se inscrever em qualquer curso superior, você paga a Contribution de vie étudiante et de campus, a CVEC: 105 € por ano. Sem o comprovante, a universidade não fecha a inscrição. Bolsistas não pagam.
Taxas do visto e do título de residência
A papelada também tem preço, e ele chega em quatro momentos. Ainda no Brasil, você paga o procedimento Études en France e, depois, a taxa consular do visto, no France-Visas. As duas mudam com frequência, então confira o valor no site de cada uma no dia de pagar.
Já na França, você tem três meses para validar o visto online. A validação custa 100 €, pagos com um timbre fiscal. Sem ela, o visto deixa de valer como título de residência, e não existe atalho para corrigir isso depois.
No segundo ano vem a renovação, por 150 €. Se o título vencer antes de você pedir, entram mais 180 € de taxa de regularização. É o tipo de gasto que se evita com um lembrete na agenda.
Comprovação financeira: 877,50 € por mês é o mínimo, não o seu custo de vida
Para o consulado aceitar o pedido, você precisa mostrar recursos de pelo menos 877,50 € por mês de estadia, ou 10.530 € no ano. O valor acompanha o salário mínimo francês e sobe junto com ele. Como montar essa prova está no passo a passo do visto de estudante.
Esse número é um piso administrativo. Em cidades médias, ele fica relativamente perto do que um estudante gasta por mês. Em Paris, morando sozinho, é difícil viver com isso.
Moradia sem APL: o que mudou para o estudante estrangeiro
Por muito tempo, o APL foi o que tornava o aluguel possível para o estudante estrangeiro. A ajuda caía na conta todo mês e cobria uma parte do aluguel, inclusive de quem tinha acabado de chegar.
Desde julho, ela acabou para quem é de fora da UE e não tem bolsa sobre critérios sociais. E quase nenhum estrangeiro tem: a Fondation pour le logement calcula que só cerca de 2% dos estudantes extracomunitários se encaixam. A mesma fundação estima que quem recebia a ajuda perde entre 150 € e 250 € por mês.
Há uma saída que pouca gente conhece. Segundo o governo, o estudante que trabalha em paralelo aos estudos, ou que está em contrato de aprendizagem, mantém o acesso ao APL. Com título de estudante, você pode trabalhar até 964 horas por ano, cerca de 60% de uma jornada integral. Se esse for o seu caso, faça a simulação no site da CAF antes de descartar a ajuda.
O CROUS continua aberto a estrangeiros sem bolsa, tanto nas residências quanto nos restaurantes universitários. As residências têm o aluguel mais baixo que você vai encontrar, e por isso as vagas acabam rápido. Candidate-se assim que tiver o aceite.
Custo de vida do estudante: monte o seu mês
É no aluguel que a escolha da cidade aparece. Entre Paris e uma cidade média, a diferença só nesse item passa fácil de algumas centenas de euros por mês. Antes de decidir onde estudar, preencha esta planilha com preços reais da cidade.
| Linha do orçamento mensal | Onde buscar o valor |
|---|---|
| Aluguel e contas | anúncios da cidade ou residências do CROUS |
| Alimentação | o restaurante universitário do CROUS baixa bastante esse item |
| Transporte | em Paris, o Imagine R Étudiant custa 401,30 € por ano para quem tem menos de 26 anos |
| Celular e internet | operadoras francesas, planos sem fidelidade |
| Seguro saúde complementar | opcional, mas recomendado |
| Reserva para imprevistos | pelo menos um mês de aluguel |
Se a sua soma passar dos 877,50 €, use a sua soma. O consulado trabalha com o mínimo; quem paga as contas é você.
Como fechar a conta antes de embarcar
Na hora de planejar, três decisões pesam mais do que qualquer economia no supermercado.
A primeira é a cidade, porque o aluguel sozinho supera todas as taxas somadas. A segunda é o curso: doutorado, aprendizagem e diplomas próprios de escola ficam fora da matrícula diferenciada, e isso pode mudar o orçamento em alguns milhares de euros. A terceira é o calendário. Validar o visto dentro dos três meses e renovar antes do vencimento evita cobranças que não precisavam existir.
Ninguém controla a decisão do consulado. O que está nas suas mãos é chegar lá com a conta feita e um dossiê que conte a mesma história que ela.
Ainda não sabe qual visto se aplica a você? Comece pelos vistos de estudo. Se quiser um caminho pensado para o seu perfil, faça o diagnóstico gratuito da Lexora.
Perguntas frequentes
Em universidade pública, o primeiro ano de um estudante de fora da UE sai por pelo menos 13.637 € na licence e 14.685 € no master. A conta soma matrícula, CVEC, validação do visto e os 877,50 € por mês exigidos na comprovação.
Não. Quem vem de fora da União Europeia paga matrícula diferenciada: 2.902 € por ano na licence e 3.950 € no master. Doutorandos, aprendizes, residentes de longa duração e quem tem domicílio fiscal na França há mais de dois anos pagam a tarifa comum.
Dá, mas ficou mais difícil. A isenção agora é individual, depende da sua situação pessoal, sobretudo financeira, e cada universidade só pode concedê-la a uma parte limitada dos estudantes estrangeiros.
Só se cumprir as condições de uma bolsa sobre critérios sociais, o que é raro. Quem trabalha durante os estudos ou está em contrato de aprendizagem mantém o acesso: vale simular no site da CAF.
É a contribuição de vida estudantil, paga antes da inscrição em qualquer curso superior. Custa 105 € por ano letivo, e bolsistas não pagam.
Não. Esse valor é o mínimo para viver na França. A matrícula é paga à parte, então o orçamento real soma as duas coisas.